sábado, outubro 23, 2004

Manhãs

Manhãs, parece que não couberam no nome deste espaço. Esta parecia de outrora, de outra hora, o fumo da água teimava em prender-se aos talos das arvores, os pássaros trocavam de roupa, na testa surgiam faróis de ver e ser visto, entrecortados com as folhas esvoaçavam na ânsia do que não se via ... a luz. Foi birra de sábado, levantou-se mais tarde que estava frio e não lhe apetecia destapar-se, botija nos pés, gorro até às orelhas, percorria os caminhos dos lençois, as arvores de braços estendidos até ao seu regaço, de nada lhes valia, no esconde esconde, vultos desenhavam-se ao redor dos troncos, calças curtas, casacos escorridos, mão em riste, moeda que falta, sede que sobra, vapor de engasgo, confunde-se com o fumo da água sem cigarro, até parace, mas só parece, o cheio que lhes falta já não vem do ar, está pra'lém dos braços que rasgam o céu, angústia de não ver outros no caminho invés.
A manhã, esta é só diferente porque é mirada de lá para cá, sem culpa, sem trejeitos, mágoa ou inveja, é olhada pelos olhos das pontas dos dedos, de quem só ousa respirar o vapor dos cigarros, queimados numa qualquer manhã, sem já entender que os pássaros que voam para lá dos braços estendidos, vagueiam em lugares distantes e fantasiados, só fantasiados...
Da luz, só a restia, parece que a trouxeram, lá para o final, vinha bonita, raiada, quente e brilhante, fica sempre mais bonita quando é desejada, as mãos sempre estendidas, o fumo agora é mais denso, mais intenso, já não é de água; tirou o gorro esperguiçou-se e foi tomar um café que hoje pago eu...

quarta-feira, outubro 13, 2004

Do'bater

Corro para o computador na ânsia de o encontrar, ou melhor, de o procurar outra vez, perdi-o ontem quando já estava praticamente pronto, tinha-o escrito de enfiada, como se fosse de pinhões, tinha gostado dele, deve-se ter perdido no meio deste novo éter, um ''clic'' errado e já está, não está, está não sei donde, e isto não é como a bolinha que se enrola do nariz ''... deixa lá que eu faço outra...'', o que mais me irrita é que tinha gostado dele e logo eu que não sou de gostar de quase nada, e agora a frase fatalista...enfim.
Tinha-o dedicado à dor, aliás chama-se (onde quer que esteja) Da'dor.
Dela falo de cor, como um ar passado de validade, que se enxota para longe e se estraga com desodorizante barato, que outra coisa não merece tão enfame é; vê-se de longe que longe da vista..., mas fala-se com doutas palavras que os ouvidos agradecem, ungidos por tão distintas pavénias, bacalhaus escorridos no peito, lá onde ele bate de dentro pancadas de Mouliere, que a peça está a começar,...lindo aplusos mesmo antes de começar que não sou merecedor de tal presença, escorreito ei-lo, olha de cima para a coisa e a raia lá está, olhos esbogalhados...sussurram ''...trará ele com ele?...'' , silêncio, as folhas esgrimem-se umas ás outras para ver quem é a primeira, que o tal esqueceu-se de as ensinar, os oculos esbarram para o fim do nariz como quem vem de cima, o suor denuncia o erro, mas está lá tudo... bem o que sabe, porque tal como o burro que leva o fardo, sente que pesa, mas não sabe o que é, assim está e de cima vê-se melhor, mas de baixo sente-se o que é, fica mais ao nivel da fechadura que permite ver para o lado de lá, pelo halo da porta, a mesma que subtrai à realidade o outro da indiferença, os ferrolhos ás vezes ficam calcinados do não uso e não posso, do doi-lhe as costas para se vergar, cá de cima vê-se muito melhor. Butou, a plateia foi-se subtraindo de altura, os ombros formaram setas de desânimo com a cabeça, os olhos empalideceram, os braços sem fim e o corpo do fim, de tudo o nada, aquele tal não era ele, era outro por ele, era ele sem ele, falava de cor, de longe, sem tom apenas sem...
''...Doravante (onde é que eu já li isto), só lá vou quando for mesmo ele, doravante vou tê-lo sempre comigo, lá onde bate, mas ora sem espetáculo, só para o ouvir bater, só para o sentir e assim estar mais perto de cá e lá, não de cima, mas de lado...'' limpou o traidor da testa, que lhe toldava a vista, desceu para um final menos triste, desceu para si, que lhe sirva de emenda, redopiou os olhos no chão, e guardou as palavras no bolso, essas sem sentido, as outras vai dizê-las de cor sem papel porque estão ensinadas pelo bater do Mouliere...

sábado, outubro 09, 2004

Nunca ambicionei ter um blog, na verdade cheguei a ser mordazmente critico face à sua existência, inveja talvez, e depois aquela ideia de que aparecer na net é algo assim distante só ao alcance de iluminados corajosos e capazes de feitos épicos, não para alguém que procura as letras de fio a pavio num amontoado de estranhas teclas. Assim até parece bizarro estar a bater com as pontas dos dedos num lado e sairem palavras noutro e que estas possam ser vistas em qualquer parte do mundo... tamanha ousadia!!! O nome não foi ao acaso, trata-se de uma alegoria ao incessante avançar, de quê? Dos ponteiros do relógio, do pêndulo invisivel,das marés, das estações, das noites e dias. O que fazemos, o que faço com este privilégio, como preêncho os hiatos, as opçoes que tomo, o que perco, o que ganho, as ambivalências e incoerências, de quem gosto, do que vejo, do que faço e do que faço com isso.
Também não sei se vai ser um espaço catartico, é um movimento tranquilo despretensioso, individual como quase tudo na minha vida neste momento, é um espaço sem compromisso, que não pretende ser um diário, pretende ser só um espaço, mais um espaço na minha vida... depois logo se vê...