sexta-feira, outubro 04, 2013

Do amor...


Ficaram sempre as ideias...
Serão sempre as ideias...
Dos anos a passar e eu a passar neles
Ficarão sempre os retratos, as memórias
Fotografias do tempo...tempos e tempos a passar

Mas esses são outros...
Agora há os de... agora
São ao que parecem mais devagar...
e no entanto...não
São exactamente iguais para quem os conta
E tão diferentes para quem o vive...

Esse tempo diferente de contar e viver...
Tal como o dentro e o fora que ganhou a forma do corpo
Do corpo pensado...para além do sentido
E o prazer...o imenso prazer...de o viver

A garantia do amor e a tranquilidade da consciência...eis o substrato da eternidade

Miguel Vieira

sábado, março 16, 2013

Era agora...

Era agora...

Sentava me no teu olhar a respirar te
O sopro da tua alma tocava me como um poema sem letras...
Ficava só com o teu sopro...
Nada mais de ti...Só o teu sopro...
O corpo a ficar em ti naquele ti...
Sonhei cada gesto
Quis cada abraço
E agora só o sopro...
Uma lembrança eterna
Há em ti a memória do tempo dos olhares
Há em mim o encontro desejado
Há em nós o futuro prometido
E eu a quere lo a cada instante resgatado da memória
A querer te mais que o sopro
Mais que o corpo
A querer te a alma
O pedaço de eternidade

Miguel Vieira

Se soubesses....

Se soubesses a que sabes
Se soubesses a que sabe o teu olhar
Se eu tivesse palavras para te dar o meu
Quando penso em ti
Se soubesses que a tua ausência....é sentida como presença
Se soubesses que és para mim uma lágrima insecável
Uma eternidade
Um rio que não pára

segunda-feira, março 11, 2013

00:00



00:00
Hoje escrevo te particularmente envolto em ti
Sobram em mim os teus pedaços espalhados por onde ando e olho
Vais me habitando num continuo que desejo
Nessa promessa desprometida
Vou te encontrando por casa
e sentindo o teu cheiro
As almofadas já são tuas
E o teu corpo continua aqui
Há em ti uma presença que se perpetua na tua ausencia
O jeito brusco de existir
Talvez porque assim teve de ser
Como se tudo na tua vida tenha sido brusco
Os pulinhos pela casa num medo inquietante
Como se pessoas do nada pudessem surgir debaixo de cada passo
São só os teus passos meu amor
São os teus passos
Que agora dão a cadência dos...meus...
Hoje escrevo te particularmente envolto também nos teus passos
Afeiçoei me a eles e fiquei com seu ritmo
Já não os troco por nada
Fiquei com os teus silêncios cheios de ti
Que as palavras já não são por dizer
Pautam o ritmo dos silêncios
Tal como os teus passos
Ficaram no silêncio da tua ausencia
E tu neles aqui
Como as palavras por dizer que não necessitam de ser ditas
Assim és tu para mim
Os silêncios, as palavras ditas e por dizer sem ser preciso dizê las, os passos que marcam o ritmo, os murmúrios que são as palavras quase ditas mas já entendidas
Os silêncios do olhar
Os olhares possiveis...
Os abraços dados e desejados
E as mãos...
Dadas

Miguel Vieira

terça-feira, fevereiro 05, 2013

Monmarte



Sobe se uma rua íngreme  adivinha se uma cúpula ..já a havia visto no livro de ver cidades sem lá estar, parece alva, distante na fotografia do livro de visitar, havia uma névoa de quem a tirou, e tirou a do sitio onde parecia não haver mais luz...e ficou a névoa.
O sol vai se subtraindo ao céu, deslizando pelo horizonte, pintando a cúpula de um ocre antigo sem idade, as escadas repletas de gente que fala entre dentes, e há uma fila que espera com com gente que fala entre dentes. 
Os santos no altar olham...de soslaio estes rodos em esperas que parecem inúteis...os das escadas de costas voltadas, ignoram a espera....e esperam só que o sol se subtraia aos telhados distantes.
O dia havia sido igual ao da fotografia do livro de visitar..., sentia se o cheiro da agua no ar, as nuvens compactas, quase infinitas, sucumbiram...de repente como se de uma graça, irrompeu...vinha do alto e trespassou até aqueles que esperavam.
Não havia estrangeiros entre eles, eram de uma única nação, de um único pais, pousavam os pés na cidade e olhavam a cúpula  queriam as entranhas do céu ali, guardavam na memória de uma fotografia aquilo que os olhos não conseguem, e havia os dos pincéis em tintas inventadas que desenhavam as palavras da memoria, e os outros que sem tinta levavam os retratos para um papel distante e numa pressa súbita as vomitavam para a eternidade...

Miguel Vieira      

Vinha na Cidade


O sangue feito vinho...
Um jardim de vinhas...
Flores salteiam as veredas, ajardinam a horta do sangue...
A colina frondosa, as casas rainhas do povo...
O povo sem rei...de volta ao sacrifício da terra..à revolta

Tudo está absolutamente ligado
Impera a ligação
a sensação de solidão está fora da realidade...desta realidade
Na realidade esta é a solidão...a impressão que não há solidão
Substitui se as caras por fotografias, roubadas ao acaso do momento
Guarda se o momento...não as caras
Fica se sem o sentido
e fala se...fala se muito...demais porventura

A vinha no meio da cidade 
Permanece só...solitariamente só...
Só de si própria...
Recria o sangue dos seus heróis
Dos mártires que sobre vieram do fim dos tempos

Miguel vieira