domingo, novembro 20, 2011
Desentendido....
O mundo passa e ás vezes parece impossível vive-lo
Sinto-o distante...
O sorriso dos outros e as alegrias
São espectros impossíveis de tocar
Estrelas de um céu que não o meu
Olho-o mas não o vejo
Os cigarros acendem-se e apagam-se e não os fumo
Ardem sem mais
Ardem apenas
Nem o fumo cheiro e no entanto ardem
Há uma estranheza, uma incerteza inquietante
Passam por mim os seres de mim
Riu-me deles..
Parece que aquela vida que têm lhes chega
A esplanada parece imensa
Falam e entendem-se
E eu aqui só, nem a mim me entendo
Abandonei à muito esse mundo relacional
Agora só o vejo, como se fosse próximo
A uma eternidade de distancia
Tenho para mim que o que queria não existe...e que...
o que existe não o quero
Uma espécie rara de equação que não se resolve
Procuro no que ainda me resta a qualidade do perdido
Vejo-o....
talvez num berço de uma creche lá para os lados de Benfica
preso dentro das grades...só
Hoje sem grades do berço, permaneço nessa prisão invisível
que só o meu corpo sabe.
Fui dando passos, querendo outros,
arrumando memorias, famílias inteiras e vivendo outras.
Por vezes não me habito
Escuto historias inteiras que me contam
e aflijo -me com isso,
chego mesmo a indignar-me e ai....
sinto outra vez.
Acabado esse tempo volto ao que já não tenho
e nada encontro
Encontro erros, desgraças, ilusões e desilusões,
aventuras sonhadas, desejos e talvez um TU...
Não volto a pedir o que já não mereço
Não volto ao prazer da carne que não me aquece...
Transitoriamente uma espécie de calor
como um cigarro que arde sem ser fumado
deixado num cinzeiro fortuito
Acendo outro...
Olho quem passa e não se passa rigorosamente nada
Os semáforos de verde a vermelho na mesma cadencia
As letras a fugirem-me
e eu às vezes a não as perceber
Eu a escreve-las e a saírem-me retorcidas sem nexo
Mais um perdido que me olha
tento perceber um sorriso mas nada
Cuspo no chão e não lhe acerto
Se calhar é a língua que não entendo
Tudo me parece profundamente bizarro
Estou mudo, tenho uma língua que não uso
Quase surdo, uns ouvidos que não percebem
Uns olhos graduados sem verem
Um pensamento que descarrego em letras feitas palavras
traços juntos...
E as vozes que me trespassam
ás vezes
o desencanto de não as entender
Miguel Vieira
segunda-feira, novembro 14, 2011
Saudade
O que tenho às vezes não me chega
A saudade sim, vai-me chegando
A saudade tem tudo...o que se viveu e o sonho do real
A fantasia e o ideal...
A saudade, o estado perfeito...
A saudade e a impossibilidade de viver
Só consigo ter saudade....
Miguel Vieira
Encontro
O cinzento lá fora...
Cá dentro toda uma nação
Talvez um pais, um coração
Sinto-me distante de tudo e do mundo
E no entanto no centro dele
Cheguei ao centro e não o vejo... procuro senti-lo, olhá-lo...
Largo um sorriso ao desbarato..
Vou sair para a rua e deixá-lo entrar
Talvez me encontre nela...
Miguel Vieira
Cá dentro toda uma nação
Talvez um pais, um coração
Sinto-me distante de tudo e do mundo
E no entanto no centro dele
Cheguei ao centro e não o vejo... procuro senti-lo, olhá-lo...
Largo um sorriso ao desbarato..
Vou sair para a rua e deixá-lo entrar
Talvez me encontre nela...
Miguel Vieira
Estar para ali...
A estar para aqui...
E quase nada se passa
A ficar ficando de tanto ficar
As dúvidas que já não são
E as que são a deixarem se ficar
A emocionar me de te ouvir
Nessa serenidade quase nua...quase crua
E as gotas na vidraça quase a parti la
E a sirene que ai vem...mais uns
O avião a destroçar céus nuvens abaixo
A ficar de rodas ao léu
O ar a gritar desventrado
E a tua voz dentro de mim em palavras de sonho
A compor me as células
A compor as próprias frases
A deixar o curso das veias
A sair do corpo fora
A entreter o tempo com coisa nenhuma
A água nos beirados, a chuva nas vidraças
Vem para dentro que está a chover
E eu a querer fazer me chuva
O lume aceso no quadro da sala
O único lume aceso, a mesa posta na cozinha
Uma espera infinita e...
Os sapatos que não chegavam à casa de banho de madrugada
Chegavam só quando queriam
Chegavam quando chegavam mesmo quando já não queria
E a estar para ali
De porta entreaberta com a esquina do roupeiro
A não se passar quase nada...quase nada.
Miguel Vieira
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