sábado, dezembro 02, 2006

Agora de novo

Acreditei um dia que este seria o dia
Não neste dia mas foi num outro
Inventei-o há muito dentro de mim
Sabia cada passo todos os espaços gestos e cheiros
Busquei nos almanaques de outras vidas pedaços da minha e ... colei
Encontrei doces e amargos de boca
Lagrimas nos olhos e sorrisos nos cantos dos labios
A vida num repente de rompante
Calcinada que estava de queixo caido
Remediei o olhar no ombro do futuro
O encanto ido morreu há tanto
Crescem no fruto que dai medrou, abraços apertados todas as semanas
No regaço dos seus corações cresço também
Desencravo os seus olhares da melancolia percorrida
Pinto as suas vidas com as cores do mundo real ... e espero
Deleito-me na espera, no horizonte da espera, no caminho do amor
É lá que todos nos encontramos

quinta-feira, julho 20, 2006

Quase uma história

Cresceu desapontado com o mundo, com a sensação que se tratava de um incorrigível vagabundo, nómada no seu corpo, formas contrariadas pelo tempo que acrescenta marcas arredondadas e escavadas.
Rasgada a sensação de nascer de um desejo profundo, progenitou-se durante anos a perder de vista, cardápios de vida lidos à exaustão, olhos bem abertos que o sono tarda. A mingua dos alimentos para além do leite materno, estranham a formosura do tamanho, o maior da noite, parecia de três meses diria vezes sem conta sua mãe do alto de um orgulho feito de gordura, nem sei do que medra, as noites eram boas, calminho. As alergias atentaram desde sempre, asma que se finou com uma mudança de território, a humidade de Queluz fazia miséria e a creche desde os quinze dias minavam-lhe os alvéolos, nada a fazer diriam médicos sem conta, com o tempo passa, mas o tempo não passava e o ar faltava a cada espirro.
Todos os dias calcorreava nos braços da sua mãe, que o empunhava como estandarte, trilhos sem fim até ao comboio, fuga apressada que o pica já vem na outra carruagem e o bilhete é meio-dia de trabalho. As enfiadas de pinhões eram para de vez em quando. Mais tarde, quando a chucha foi dada à Doninha, cadela ladina do rés do chão, talvez a memória do primeiro choro sentido, não percebia que o pai chegava sempre tarde, trabalhava de pedreiro nos telefones e as avarias eram muitas e não escolhiam horas. As recordações de família fixaram-se durante anos numa fotografia na praça do comércio em que estava de gorro branco matisse, adivinhava-se nas traseiras a presença dos que o tinham parido, o sorriso franco e inocente largado aos pombos que esvoaçavam em redor, denunciavam-nos, era ali que queria passar o resto da sua vida entregue a sorrisos e brincadeiras sem fim, e foi por ali que foi ficando com as memórias carregadas de sonhos sem sentido. O alento que o traz vestido mistura-se com o desejo de apaziguar a orfandade tardia é certo, mas omnipresente desde de que passou a dar nomes ás cores.
Aos vivas pelo rebento, lampejaram desavenças das tias e avós que eram de longe, coisas das guerras do ultramar, que o pai havia ido fazia mais de nove meses ora…! O ele sempre houvera partido, desde os treze anos que debandara a Lisboa para dormir entre sacos de cimento, forçado pela faca do seu pai cravada em momento de desavença, as terras e estremas, marcos e serventias faziam parte da peça, um palco difícil de pisar.
A cada regresso à aldeia, juras a troco de actos de amor, promessas sem fim, a
Foi sempre à conta que tudo aconteceu, a inscrição no curso no último dia já à tarde, o exame de aferição em segunda época, e o curso tirado ás teimas, repelões e amuos, zangas, as obras que lhe foram apresentadas ainda quando tinha as mãos cheias de piões e guelas, eram um desafio só para o corpo, aquilo não era uma coisa a sério, os que tinha tido na vida eram à dimensão de um taipal, no escondidinho do quarto soltavam-se umas de rir outras de chorar, soltavam-se todas umas atrás das outras, porta entreaberta alinhada com a esquina do guarda-fato e uns passos breves, no cimo dos passos uma voz “ …tá tudo bem…”, e o silêncio da resposta fazia acreditar à dona dos passos, que teria ouvido mal, que a sua otoesclerose era mais precoce, e lá ficava a corcomer-se por dentro em sons silenciosos e aflitos, nessa altura o desejo voava para longe, para a irmã que não conhecera, um tormento, desaparecera antes que o tempo o tivesse tocado, um choro mal gritado, gritado devagar e já está, e o choro ficou preso nos seus ouvidos, refém eterno como a saudade do rebento desconhecido, sempre lhe disseram que era único, mas aquilo mudava tudo, quase um remorso de ter nascido depois, mas antes estava destinado que ia ser assim, sim porque naquelas terras onde o alcatrão tarda o destino é que manda

quarta-feira, julho 12, 2006

Renascer

O alentejo quenasce dentro de mim, voa devagar e mostra asas de pena longa e cauda curta.
Pensamento aplanado pela marisia do sudoeste onde
galgam ondas de espuma, na rocha polida
Força indomável, a natureza terna e acolhedora
Os olhos rasos de planicie e cheios de mar,
gargalhada largada ao vento,solta e leve.

A descendência que corre na areia encontra o caminho
do amor e os braços que a acolhem o reencontram
tanto tempo passado do lado da vida errado da vida e
ela ali ao lado, o tesouro e o infortunio, a razão por fim na emoção.

A descoberta do tempo que passa em cada segundo, não
como se fosse o`último, que esse já lá vai.
Mudar de linha
mudar para outra linha
Mudar para viver.

O abraço que procurei tanto tempo , estava mesmo dentro de mim, estava abraçado a ele, estava enrolado nele, como alguém que procura algo que está na sua própria mão,
enrolado ao pulso para não se esquecer.

Há uma coerência, mesmo na incoerência, digamos que a última é só o percurso para a primeira,
por vezes longo,
mas a antecipação do sofrimento que existe no momento de impactocom a coerência (como se algo de estranho se tratasse), promove o demorado o caminho, sem saber que a própria incoerência é o caminho cheio de sofrimento.
Afinal esta incoerência é o resultado da busca, da procura, da incessante deambulação entre o sofrimento e o prazer, entre tudo aquilo que cada um dá a si próprio e à sua vida

Neste preambulo, constroem-se verdades, destroem-se mitos e ilusões, mata-se e nasce-se vezes sem conta, ri-se e chora-se, esta é a essência do sofrimento com lampejos de alegria

quinta-feira, março 23, 2006

noitesedias

Naõ se abraça à distância,
Não se toca no ombro.
mas sente-se a dor e o frio no coração cá por dentro,
A memória é honesta e e o silêncio também é música,
O meu silênciotem a formade um imenso abraço impotente ao teu desconsolo,
Eis aqui a pequenez dos nossos gestos e o infinitodo desejp.
O legado que te é deixado, esse é dotamanho do desejo tal como o amor de deus.
Eles estão contigo bem mais do que sabes e tanto quanto mereces...

sexta-feira, março 17, 2006

Chuva no Caminho

Chove na noite que a manhã tarda,
é tarde para quem vai daqui para lá,
é cedo para os que inanimados esperam,
deitados que o efeito lhes passe.
Mais tarde parecer-lhes-á que a manhã tarda
e é como se a noite se estende-se para além do efeito das pastilhas.
Mudos com gritos de pensamento turvo,
circulam em passeios sem fim,
em estradas sem sinais
sem bermas nem canais,
Esperam a hora dos vivos,
que saem e entram,
sacodem a chuva que a manhã tarda
E a vida muda surda já só está ali...

Livro

noitesedias
O abraço que tenho dentro de mim espreguiçou-se, dos braços sairam ideias tamanho das letras, dos ombros arrancaram-se pesos, das mãos dedos de indicar. A leveza do encanto, soltou-se em risos descarados, marcas de tempos idos e por vir, cruzam-se com os braços ainda embrulhados, face a face passado e o que há-de vir. Júbilo e desafio, vontades e medos, o impensavel e o provável, o longe e o ali. O som dos pensamentos confunde-se com desejos feitos de esperas imaculadas, como virgens do tempo a cada instante, o espirito feito realização na aura da vida, surge num papel feito de nada, o calvário que me espera é à medida da tentação das pontas dos dedos que batem nas letras, o caminho que percorre há-de ser o escorrer da tinta de dentro de mim.