Havia um caminho
Eram pedras, umas soltas
Outras por soltar
Vagueava por essa estrada
Pau na mão
e na outra desejo
Levantava do chão
as que se soltavam e debaixo delas a escuridão
Eram vidas feitas de trabalho
Ficava entretido no caminho
A soltar umas, e outras a prenderem-se
Derramava-se o mundo debaixo dos pés
Em cidades feitas galerias
Sonhara um dia ser formiga
Era o negro que o atraíra
E havia as pedras que ficavam
Com as histórias para contar
Levava as que via
E as outras inventava
Para ti, fazia um caminho
E derramava nos teus olhos
As paisagens que vivia
Havia a cor que entendia
das palavras que dizia
E no teu olhar, o silêncio da sabedoria
Era lá que permanecia
Era lá que pertencia...
Miguel Vieira
quarta-feira, março 23, 2011
domingo, março 20, 2011
Tempo...
Fiz com o tempo
O que se pode fazer com a eternidade
Gastei-o em pedaços generosos
Sem a noção de infinitude
Guardei-o nos relógios
Nas salas de espera
Nos espantos das caras
Num desacato entretido
Não quis a noite que eu me tivesse
Quem me dera abandonar este ser interpretativo
Refém da leitura dos sinais
E ficar pelos sentidos
Ficar pelas coisas
Pelos olhos e pelos olhares
Ah! E o desejo de conhecer desse lugar ao prazer de encontrar
Um descanso celeste poderia visitar
O que se pode fazer com a eternidade
Gastei-o em pedaços generosos
Sem a noção de infinitude
Guardei-o nos relógios
Nas salas de espera
Nos espantos das caras
Num desacato entretido
Não quis a noite que eu me tivesse
Quem me dera abandonar este ser interpretativo
Refém da leitura dos sinais
E ficar pelos sentidos
Ficar pelas coisas
Pelos olhos e pelos olhares
Ah! E o desejo de conhecer desse lugar ao prazer de encontrar
Um descanso celeste poderia visitar
quinta-feira, março 17, 2011
O Jardim do Éden...
Recantos e ruas, esquinas e vielas, becos e praças, quiosques e cafés, espaços imensos espaços. Verde como se fosse a cor da esperança, adiada por todos, desejada por tantos, só por poucos alcançada. Deste quarteirão eterno, sobejam ares de pinhal, bosques de fantasia e grutas habitadas por Adamastores desconhecidos e nunca vislumbrados, as rasgadas bonecas de trapo que transitam por entre os amontoados de restos de natureza morta, carregam em si as agruras dos seus pensamentos roubados das histórias das novelas, mas com finais invariavelmente tristes. São como bandos de gaivotas em terra, em dias de tempestade no mar, as altas arvores são como corais luxuriantes, recondidos da sua existência, tão retorcidos como as suas fábulas.
Para além dos muros fica o mundo mundano, do incompreensível, como quem vê o cabo das tormentas ao longe, mas tem medo e não ousa em ultrapassa-lo.
O jardim do Éden rasga-se no meio da cidade, vedado para que não possa ser invadido pelo quotidiano, pela profunda normalidade ritualizada, para que os seus sonâmbulos das pastilhas, possam preenchê-lo com os seus vagares sem incómodo. É como se fosse uma realidade onírica, onde a existência do pecado pudesse ser sempre reinventada, sem perder o sentido, como numa história para crianças.
No início tudo parecia grande, mesmo demasiadamente grande, e sem perceber porque, o espaço foi-se subtraindo progressivamente, como quem conhece as pedras do caminho de regresso a casa, são estes também os percursos do Éden.
As maças não sorvem de veneno, são doces e verdes, têm aura de vida, a mesma que à sido roubada pelo monstro, os braços escorridos pelo corpo e os gestos grosseiros dos dedos finos, falam tanto como os olhos desalentados; só o assobio do pássaro e o saltitar de um melro, vestido de luto, comendo as migalhas soltas dos restos dos bolsos, onde se guardam sustentos, recordam por fugazes instantes que a vida passa aos repelões para além da finitude destas ruas. Das copas das árvores vislumbra-se a imensidão de lá, de cá ficam os deixados pela vida e que a esta se agarram como lapas a rocha fria.
O paraíso, entidade mítica e mitigada, olha-os de soslaio enganador, mente-lhes em ideias fantásticas de recuperações, não menos fantásticas... mas e então todos aqueles que ali permanecem não quiseram mais que isto, um jardim abandonado pelo jardineiro que já não sabia o que fazer com as suas plantas e sementes.
Para além dos muros fica o mundo mundano, do incompreensível, como quem vê o cabo das tormentas ao longe, mas tem medo e não ousa em ultrapassa-lo.
O jardim do Éden rasga-se no meio da cidade, vedado para que não possa ser invadido pelo quotidiano, pela profunda normalidade ritualizada, para que os seus sonâmbulos das pastilhas, possam preenchê-lo com os seus vagares sem incómodo. É como se fosse uma realidade onírica, onde a existência do pecado pudesse ser sempre reinventada, sem perder o sentido, como numa história para crianças.
No início tudo parecia grande, mesmo demasiadamente grande, e sem perceber porque, o espaço foi-se subtraindo progressivamente, como quem conhece as pedras do caminho de regresso a casa, são estes também os percursos do Éden.
As maças não sorvem de veneno, são doces e verdes, têm aura de vida, a mesma que à sido roubada pelo monstro, os braços escorridos pelo corpo e os gestos grosseiros dos dedos finos, falam tanto como os olhos desalentados; só o assobio do pássaro e o saltitar de um melro, vestido de luto, comendo as migalhas soltas dos restos dos bolsos, onde se guardam sustentos, recordam por fugazes instantes que a vida passa aos repelões para além da finitude destas ruas. Das copas das árvores vislumbra-se a imensidão de lá, de cá ficam os deixados pela vida e que a esta se agarram como lapas a rocha fria.
O paraíso, entidade mítica e mitigada, olha-os de soslaio enganador, mente-lhes em ideias fantásticas de recuperações, não menos fantásticas... mas e então todos aqueles que ali permanecem não quiseram mais que isto, um jardim abandonado pelo jardineiro que já não sabia o que fazer com as suas plantas e sementes.
O Guardião
Submetido a este Grande Campo, onde os insanos prevalecem, sobre a ciência, mantenho a vigília do sono dos outros... absoluto, terno e por vezes sensato, quiçá hostil, Guardião da Loucura, que a fecha a sete chaves de poder e de pudor. É que nunca, nem ninguém poderá descansar o olhar sobre terra tão profana, esta que é encerrada e encarcerada pelo Portão Principal; o mesmo que os torna tão pouco gente, mas.... e aquele que vive dentro de ti, que te altera o sabor das coisas simples, que te põe um sabor a fel na vida, ou aquela maldita sensação de andar na boca do mundo, voz sempre presente de alguém tão ausente. Nunca ninguém provou esse dissabor, essa tormenta de forma tão fiel, essa condição indelével que torna aquilo a que chamam vida num calvário, ou simplesmente não a torna.
Amargo esse sabor que vive na tua boca, que desce do pensamento e te invade o espírito e inunda os gestos que trazes no corpo, o mesmo corpo que se curva sobre uma existência condenada no momento de parir e consumada no momento de partir. E partir o que é? Se só é partir se existe onde estar! Ora... existir, estar, talvez ser e que mais... mais nada ou tudo que resta deste aspecto de coisa aparentada com gente ou então só um ser atrás do Portão Principal no Grande Campo.
E que impotência é esta que carrego, que me subtrai, que me aniquila? Como me comporto com esta insatisfação? O que digo quando penso alto? Às vezes nada, como se a ausência de palavras pudesse traduzir um turbilhão de ideias quase sem nexo. Por vezes, no caminho de regresso a casa, paro o carro e na beira da estrada fico parado a ouvir o silêncio, traz-me à memória conversas, fragmentos dessa complexa existência hospitalar, deste quotidiano que tenho adoptado como um filho que desejo, mas que temo. Olho para dentro daquelas paredes forradas de mãos e fantasio a solidão dos corpos. O Hospital, pesada entidade, que me desconsola, aprendo a olhar-te com ternura com compaixão, porque feito por homens, não à imagem de mais ninguém senão a sua própria, é cheio de não presta, como diria minha mãe; desolo-me nas suas avenidas cobertas de folhas retorcidas pelo Outono, onde as aves se inibem de cantar e as árvores percorrem o céu, rasgado vezes sem conta por pássaros de ferro, que adicionam partituras a quadros de devaneio.
Os caminhos que percorro, são outros dos trilhos que existem e aos quais tento fugir, marcadas nos átrios e corredores, preenchidos de altivez e redundâncias que transformam os tectos em cúpulas, onde o som se transforma em ruídos disformes a que se acena de sim com cabeças pendulares em procissões infindáveis, como buldog’s na traseira de um Ford Escort de modelo passado de prazo. O sofrimento como destino, deste caminho, ou o objecto mau que tento expulsar e exorcizar, o sofrimento como forma última do cuidar, interpretação difícil e arriscada
Amargo esse sabor que vive na tua boca, que desce do pensamento e te invade o espírito e inunda os gestos que trazes no corpo, o mesmo corpo que se curva sobre uma existência condenada no momento de parir e consumada no momento de partir. E partir o que é? Se só é partir se existe onde estar! Ora... existir, estar, talvez ser e que mais... mais nada ou tudo que resta deste aspecto de coisa aparentada com gente ou então só um ser atrás do Portão Principal no Grande Campo.
E que impotência é esta que carrego, que me subtrai, que me aniquila? Como me comporto com esta insatisfação? O que digo quando penso alto? Às vezes nada, como se a ausência de palavras pudesse traduzir um turbilhão de ideias quase sem nexo. Por vezes, no caminho de regresso a casa, paro o carro e na beira da estrada fico parado a ouvir o silêncio, traz-me à memória conversas, fragmentos dessa complexa existência hospitalar, deste quotidiano que tenho adoptado como um filho que desejo, mas que temo. Olho para dentro daquelas paredes forradas de mãos e fantasio a solidão dos corpos. O Hospital, pesada entidade, que me desconsola, aprendo a olhar-te com ternura com compaixão, porque feito por homens, não à imagem de mais ninguém senão a sua própria, é cheio de não presta, como diria minha mãe; desolo-me nas suas avenidas cobertas de folhas retorcidas pelo Outono, onde as aves se inibem de cantar e as árvores percorrem o céu, rasgado vezes sem conta por pássaros de ferro, que adicionam partituras a quadros de devaneio.
Os caminhos que percorro, são outros dos trilhos que existem e aos quais tento fugir, marcadas nos átrios e corredores, preenchidos de altivez e redundâncias que transformam os tectos em cúpulas, onde o som se transforma em ruídos disformes a que se acena de sim com cabeças pendulares em procissões infindáveis, como buldog’s na traseira de um Ford Escort de modelo passado de prazo. O sofrimento como destino, deste caminho, ou o objecto mau que tento expulsar e exorcizar, o sofrimento como forma última do cuidar, interpretação difícil e arriscada
Uma Noite
Fecha-se a porta do serviço, com uma forte sacudidela para que os restos de gente da rua não possa entrar, “...sabe assim estamos mais seguros...”; e... passos largos que ecoam nos corredores, como saltos numa sacristia, sim porque este também é o lugar onde se confessam pecados e desventuras, onde se fala de paixões e de ódios, de amor e de ranger de dentes, de gente que teima…
As luzes há muito que descansam; e no ar sente-se o odor de beatas fumadas até à exaustão, por fim abandonadas à má sorte de uma biqueira fortuita que já não calcava, mas só se arrastava na ânsia de um colchão que parecia ainda distante. Nos tectos altos, pequenos pirilampos trémulos marcam presença, para que o breu não seja absoluto; do lado esquerdo fica o pequeno quartel de enfermagem onde tudo pode acontecer, desde a administração de terapêutica até aos inevitáveis descansos do guerreiro, pelo meio, muita gente se acotovela de manhã nesta sala multiusos, menos gente conversa de tarde, nas longas tardes de Inverno onde o frio se confunde com o medo; medos de estar só, inexoravelmente só, das visitas que não surgem ao fundo do corredor, esperança adiada “... Talvez venham mais tarde,... Ou talvez se tenham esquecido...”.
De noite os sons que troam são suspiros dos nossos fantasmas que nos querem falar, e os tectos... altos e salpicados de salitre como que formando planisférios de continentes desconhecidos iluminados pela penumbra, acrescentam quadros raros de uma beleza bucólica.
Na casa de banho o denso “perfume” a amoníaco mescla-se com um autoclismo por descarregar, mãos já dormentes dos hipnóticos incapazes de tarefas complexas, caem das camas como pêndulos de relógios de sala, aos quais os proprietários raramente dão corda. Ao ping-ping da água a cair da torneira que não veda, junta-se um estridente assobio de ar polar que teima em abalroar a fresta da janela. Os aquecedores esses permanecem mudos e os guarda ventos batem a repique quase incessantemente. Sobre os corpos inanimados em cima dos leitos que descansam de nada fazer; a não ser a sofreguidão da busca de sustento para os pulmões e uma água suja e quente para o estômago, o único calor tangível; amontoam-se cobertores saídos de um refugo de armazém de relíquias da II Guerra Mundial, que nada mais pode aspirar senão a sua fria quietude; os corpos imóveis pelas pastilhas e pelo peso dos decrépitos pedaços de tecido, mais não podem fazer que aguardar que a alvorada os regresse aquela forma de existência do antes do anoitecer.
Muitas vezes acordam e os corpos trémulos levantam-se perdidos, outras só por vergonha não chamam pela mãe, ou então somos nós que não queremos ouvir.
As sombras não vão além de uma qualquer caverna alegórica, em que o que é, quase nunca o parece, como se os nossos olhos ofuscados por esta outra realidade não vissem mais longe, não aceitassem o desafio, como se esta exígua forma de morrer, fosse a consequência natural desta vida, ou em última analise o retrato fiel do louco refractário e nunca incluído nesta imensa higiene social, descrito por José Régio:
“...todos tiveram pai
Todos tiveram mãe
Mas eu que nunca
Principio nem acabo
Nasci do amor que há
Entre Deus e o Diabo...”
A altivez das paredes funde-se com o olhar triste das janelas imensas e dos olhos que as percorre, os movimentos circulares de uma insónia esbarram inevitavelmente na facilidade de um SOS prescrito por alguém que nunca falou com esta insónia. Trepassa matreira de quem tudo sabe dos livros, mas ignora que tal como na vida as coisas mais importantes não são coisas, também as melhores soluções não são as que se sabem mas as que se sentem e vivem. Assim esta realidade aventada ao abandono, selecção social em estado final, remonta-me ao asilo dos indigentes, dos sem razão ou simplesmente dos..., nada, porque nada se acrescenta nesta álgebra de subtracção.
Na maioria das vezes, as amarras químicas, tecelagens laboratoriais de última geração, meticulosa e ardilosamente estudadas e de eficácia absolutamente garantida, agarram seres aparentados com gente, a camas já passadas de validade. Os sonâmbulos resistentes, flutuam como fantasmas, incrédulos da triste sorte que os assiste. Inolvidável é o troar singelo, mas sincero, mesmo honesto do punho contra a porta do isolamento; de dentro um murmúrio clama por água, os ouvidos de fora, duros e já surdos, só descortinam sons parecidos com as imagens destorcidas. Abandonado até pela voz que lhe desobedece, traição quase letal que o conduz às portas do deserto, desiste... mas sobrevive.
Esta canção de embalar, corpos e não gente, esta vivência que criticamos, mas vivenciamos, esta cumplicidade com o abandono, cheira a fel e não a mel. São rodos de gente que busca sustento para a alma, sustento para o espírito... só sustento. De volta recebe a porta do quarto fechada, o tilintar da chave perdida ao acaso num bolso fortuito, o médico idolatrado que não surge, a impaciência dos outros, a sua própria impaciência,... a sua impotência.
As luzes há muito que descansam; e no ar sente-se o odor de beatas fumadas até à exaustão, por fim abandonadas à má sorte de uma biqueira fortuita que já não calcava, mas só se arrastava na ânsia de um colchão que parecia ainda distante. Nos tectos altos, pequenos pirilampos trémulos marcam presença, para que o breu não seja absoluto; do lado esquerdo fica o pequeno quartel de enfermagem onde tudo pode acontecer, desde a administração de terapêutica até aos inevitáveis descansos do guerreiro, pelo meio, muita gente se acotovela de manhã nesta sala multiusos, menos gente conversa de tarde, nas longas tardes de Inverno onde o frio se confunde com o medo; medos de estar só, inexoravelmente só, das visitas que não surgem ao fundo do corredor, esperança adiada “... Talvez venham mais tarde,... Ou talvez se tenham esquecido...”.
De noite os sons que troam são suspiros dos nossos fantasmas que nos querem falar, e os tectos... altos e salpicados de salitre como que formando planisférios de continentes desconhecidos iluminados pela penumbra, acrescentam quadros raros de uma beleza bucólica.
Na casa de banho o denso “perfume” a amoníaco mescla-se com um autoclismo por descarregar, mãos já dormentes dos hipnóticos incapazes de tarefas complexas, caem das camas como pêndulos de relógios de sala, aos quais os proprietários raramente dão corda. Ao ping-ping da água a cair da torneira que não veda, junta-se um estridente assobio de ar polar que teima em abalroar a fresta da janela. Os aquecedores esses permanecem mudos e os guarda ventos batem a repique quase incessantemente. Sobre os corpos inanimados em cima dos leitos que descansam de nada fazer; a não ser a sofreguidão da busca de sustento para os pulmões e uma água suja e quente para o estômago, o único calor tangível; amontoam-se cobertores saídos de um refugo de armazém de relíquias da II Guerra Mundial, que nada mais pode aspirar senão a sua fria quietude; os corpos imóveis pelas pastilhas e pelo peso dos decrépitos pedaços de tecido, mais não podem fazer que aguardar que a alvorada os regresse aquela forma de existência do antes do anoitecer.
Muitas vezes acordam e os corpos trémulos levantam-se perdidos, outras só por vergonha não chamam pela mãe, ou então somos nós que não queremos ouvir.
As sombras não vão além de uma qualquer caverna alegórica, em que o que é, quase nunca o parece, como se os nossos olhos ofuscados por esta outra realidade não vissem mais longe, não aceitassem o desafio, como se esta exígua forma de morrer, fosse a consequência natural desta vida, ou em última analise o retrato fiel do louco refractário e nunca incluído nesta imensa higiene social, descrito por José Régio:
“...todos tiveram pai
Todos tiveram mãe
Mas eu que nunca
Principio nem acabo
Nasci do amor que há
Entre Deus e o Diabo...”
A altivez das paredes funde-se com o olhar triste das janelas imensas e dos olhos que as percorre, os movimentos circulares de uma insónia esbarram inevitavelmente na facilidade de um SOS prescrito por alguém que nunca falou com esta insónia. Trepassa matreira de quem tudo sabe dos livros, mas ignora que tal como na vida as coisas mais importantes não são coisas, também as melhores soluções não são as que se sabem mas as que se sentem e vivem. Assim esta realidade aventada ao abandono, selecção social em estado final, remonta-me ao asilo dos indigentes, dos sem razão ou simplesmente dos..., nada, porque nada se acrescenta nesta álgebra de subtracção.
Na maioria das vezes, as amarras químicas, tecelagens laboratoriais de última geração, meticulosa e ardilosamente estudadas e de eficácia absolutamente garantida, agarram seres aparentados com gente, a camas já passadas de validade. Os sonâmbulos resistentes, flutuam como fantasmas, incrédulos da triste sorte que os assiste. Inolvidável é o troar singelo, mas sincero, mesmo honesto do punho contra a porta do isolamento; de dentro um murmúrio clama por água, os ouvidos de fora, duros e já surdos, só descortinam sons parecidos com as imagens destorcidas. Abandonado até pela voz que lhe desobedece, traição quase letal que o conduz às portas do deserto, desiste... mas sobrevive.
Esta canção de embalar, corpos e não gente, esta vivência que criticamos, mas vivenciamos, esta cumplicidade com o abandono, cheira a fel e não a mel. São rodos de gente que busca sustento para a alma, sustento para o espírito... só sustento. De volta recebe a porta do quarto fechada, o tilintar da chave perdida ao acaso num bolso fortuito, o médico idolatrado que não surge, a impaciência dos outros, a sua própria impaciência,... a sua impotência.
quarta-feira, março 16, 2011
Loucura
Vivo rodeado de loucura
Do mais não conheço nada
Nada mais me acrescenta
Nem me aconchega
Rasguei o véu da sanidade
Sentei-me nas letras
E fiz poesia de cor
Não disse nada
Preenchi páginas agónicas
Em brancos eternos
Não havia tinta em mim
Era um rastro lânguido
Sem nexo, sem história
E uma alma feita disso
Um nada...
Do mais não conheço nada
Nada mais me acrescenta
Nem me aconchega
Rasguei o véu da sanidade
Sentei-me nas letras
E fiz poesia de cor
Não disse nada
Preenchi páginas agónicas
Em brancos eternos
Não havia tinta em mim
Era um rastro lânguido
Sem nexo, sem história
E uma alma feita disso
Um nada...
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