quinta-feira, julho 20, 2006

Quase uma história

Cresceu desapontado com o mundo, com a sensação que se tratava de um incorrigível vagabundo, nómada no seu corpo, formas contrariadas pelo tempo que acrescenta marcas arredondadas e escavadas.
Rasgada a sensação de nascer de um desejo profundo, progenitou-se durante anos a perder de vista, cardápios de vida lidos à exaustão, olhos bem abertos que o sono tarda. A mingua dos alimentos para além do leite materno, estranham a formosura do tamanho, o maior da noite, parecia de três meses diria vezes sem conta sua mãe do alto de um orgulho feito de gordura, nem sei do que medra, as noites eram boas, calminho. As alergias atentaram desde sempre, asma que se finou com uma mudança de território, a humidade de Queluz fazia miséria e a creche desde os quinze dias minavam-lhe os alvéolos, nada a fazer diriam médicos sem conta, com o tempo passa, mas o tempo não passava e o ar faltava a cada espirro.
Todos os dias calcorreava nos braços da sua mãe, que o empunhava como estandarte, trilhos sem fim até ao comboio, fuga apressada que o pica já vem na outra carruagem e o bilhete é meio-dia de trabalho. As enfiadas de pinhões eram para de vez em quando. Mais tarde, quando a chucha foi dada à Doninha, cadela ladina do rés do chão, talvez a memória do primeiro choro sentido, não percebia que o pai chegava sempre tarde, trabalhava de pedreiro nos telefones e as avarias eram muitas e não escolhiam horas. As recordações de família fixaram-se durante anos numa fotografia na praça do comércio em que estava de gorro branco matisse, adivinhava-se nas traseiras a presença dos que o tinham parido, o sorriso franco e inocente largado aos pombos que esvoaçavam em redor, denunciavam-nos, era ali que queria passar o resto da sua vida entregue a sorrisos e brincadeiras sem fim, e foi por ali que foi ficando com as memórias carregadas de sonhos sem sentido. O alento que o traz vestido mistura-se com o desejo de apaziguar a orfandade tardia é certo, mas omnipresente desde de que passou a dar nomes ás cores.
Aos vivas pelo rebento, lampejaram desavenças das tias e avós que eram de longe, coisas das guerras do ultramar, que o pai havia ido fazia mais de nove meses ora…! O ele sempre houvera partido, desde os treze anos que debandara a Lisboa para dormir entre sacos de cimento, forçado pela faca do seu pai cravada em momento de desavença, as terras e estremas, marcos e serventias faziam parte da peça, um palco difícil de pisar.
A cada regresso à aldeia, juras a troco de actos de amor, promessas sem fim, a
Foi sempre à conta que tudo aconteceu, a inscrição no curso no último dia já à tarde, o exame de aferição em segunda época, e o curso tirado ás teimas, repelões e amuos, zangas, as obras que lhe foram apresentadas ainda quando tinha as mãos cheias de piões e guelas, eram um desafio só para o corpo, aquilo não era uma coisa a sério, os que tinha tido na vida eram à dimensão de um taipal, no escondidinho do quarto soltavam-se umas de rir outras de chorar, soltavam-se todas umas atrás das outras, porta entreaberta alinhada com a esquina do guarda-fato e uns passos breves, no cimo dos passos uma voz “ …tá tudo bem…”, e o silêncio da resposta fazia acreditar à dona dos passos, que teria ouvido mal, que a sua otoesclerose era mais precoce, e lá ficava a corcomer-se por dentro em sons silenciosos e aflitos, nessa altura o desejo voava para longe, para a irmã que não conhecera, um tormento, desaparecera antes que o tempo o tivesse tocado, um choro mal gritado, gritado devagar e já está, e o choro ficou preso nos seus ouvidos, refém eterno como a saudade do rebento desconhecido, sempre lhe disseram que era único, mas aquilo mudava tudo, quase um remorso de ter nascido depois, mas antes estava destinado que ia ser assim, sim porque naquelas terras onde o alcatrão tarda o destino é que manda

2 comentários:

Maria Lua disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Maria Lua disse...

Escreves com o coração nas mãos... é bonito sentir o seu palpitar em cada frase, em cada letra.
Por isso, quero continuar a ler e a sentir mais vezes esse coração pulsar entre as linhas do teu blog.
Sempre que possível, passarei por aqui, para o ouvir...