quarta-feira, fevereiro 27, 2008

O Pátio

Como um palco onde se encena quadros e vivem fantasmas, se esconjura os medos, assim são os momentos de pátio, com uma nesga de sol emprestada, deleitam-se com a pele pintada pelo Largatil, num bronzeado vitalício. Os movimentos (quando os há) são pendulares, ritmados e sem fim, a fazer inveja, quiçá troça, a relógios de marca. Passadas largas que o tempo urge, calcorreiam infindavelmente em círculos, aquele espaço exíguo, as marcas das solas estão gravadas no cimento já gasto; num outro canto um grupo dos dos novos, fuma cigarros uns nos outros e percorrem terras e sítios fantásticos em devaneios de língua sem cessar, o vento sopra nos beirados dos telhados e aventa estas conversas para longe, onde eles já não as podem escutar, como se houvesse necessidade de as gastar, como se também fosse esta uma das razões pelo qual estavam ali; pouso os cotovelos no peito de uma janela e olho esta vida de relanço, como quem olha para um desencontro, entre o que era para ser e aquilo que realmente é, e à facilidade com que habitualmente encara-mos a desgraça alheia, retirei a indiferença e juntei sensibilidade, não a pieguice, procurei refundir-me com a criança que tenho e para além de olhar, procurei sentir sem medos, o que seria aquele pátio sem estes interpretes? Que poderia estar eu ali a fazer... Esvoaçaram meia dúzia de folhas, como se levantassem ideia; a forma daquela conversa misturada entre o fumo dos cigarros poder-se-ia passar numa qualquer esplanada de Lisboa, o que a tinha trazido para ali era o conteúdo, era cheia de gravidezes multigemelares, de pessoas com séculos de vida, qual Highlander, de ferros que percorrem os caminhos do nosso interior em estradas feitas de veias e canais recondidos, era uma inquietação tremenda, capaz de surpreender um produtor de Hollywood; descobre-se no olhar os traços da incompreensão e vislumbram-se nos gestos tiques de impaciência pela a incoerência em sentir-se bem e a clausura imposta, esta forma reguladora das ideias é algo que não cai bem a ninguém, é quase uma ditadura como gostam de dizer, com tom critico e muito a propósito, trata-se de uma não razão, de qualquer forma inexplicável de explicação sem sentido, então o que resta é este calcorrear de conversas quase ao desbarato, num fluxo interminável, na vertigem incontrolável. Ali estou, na penumbra de umas vidas diferentes que procuro descodificar de longe, como alguém que quer ver uma cena da vida selvagem, quase a suster a respiração para não ser descoberto, para não inquinar as reacções; sinto-me ao mesmo tempo, curioso e incapaz de atribuir razões óbvias e racionais a uma possível confrontação e penso para mim o quão somos intraduzíveis por esta linguagem que pouco fala de nós.
O pátio é ao mesmo tempo um ponto de desencontro entre a vida que teima em passar e aquilo que se passa nestas vidas, uma encruzilhada feita de pequenos prazeres do mundo, o cigarro, o café, a tertúlia, enfim pedaços do quotidiano colados pela casualidade do momento, mas de um futuro incerto representado pelo andar incessante num circulo sem fim.

1 comentário:

Maria Lua disse...

Muito bom!
Não desisto de passar por aqui e por vezes encontro um pérola!
beijinhos.
:-)