quinta-feira, março 17, 2011

Uma Noite

Fecha-se a porta do serviço, com uma forte sacudidela para que os restos de gente da rua não possa entrar, “...sabe assim estamos mais seguros...”; e... passos largos que ecoam nos corredores, como saltos numa sacristia, sim porque este também é o lugar onde se confessam pecados e desventuras, onde se fala de paixões e de ódios, de amor e de ranger de dentes, de gente que teima…
As luzes há muito que descansam; e no ar sente-se o odor de beatas fumadas até à exaustão, por fim abandonadas à má sorte de uma biqueira fortuita que já não calcava, mas só se arrastava na ânsia de um colchão que parecia ainda distante. Nos tectos altos, pequenos pirilampos trémulos marcam presença, para que o breu não seja absoluto; do lado esquerdo fica o pequeno quartel de enfermagem onde tudo pode acontecer, desde a administração de terapêutica até aos inevitáveis descansos do guerreiro, pelo meio, muita gente se acotovela de manhã nesta sala multiusos, menos gente conversa de tarde, nas longas tardes de Inverno onde o frio se confunde com o medo; medos de estar só, inexoravelmente só, das visitas que não surgem ao fundo do corredor, esperança adiada “... Talvez venham mais tarde,... Ou talvez se tenham esquecido...”.
De noite os sons que troam são suspiros dos nossos fantasmas que nos querem falar, e os tectos... altos e salpicados de salitre como que formando planisférios de continentes desconhecidos iluminados pela penumbra, acrescentam quadros raros de uma beleza bucólica.
Na casa de banho o denso “perfume” a amoníaco mescla-se com um autoclismo por descarregar, mãos já dormentes dos hipnóticos incapazes de tarefas complexas, caem das camas como pêndulos de relógios de sala, aos quais os proprietários raramente dão corda. Ao ping-ping da água a cair da torneira que não veda, junta-se um estridente assobio de ar polar que teima em abalroar a fresta da janela. Os aquecedores esses permanecem mudos e os guarda ventos batem a repique quase incessantemente. Sobre os corpos inanimados em cima dos leitos que descansam de nada fazer; a não ser a sofreguidão da busca de sustento para os pulmões e uma água suja e quente para o estômago, o único calor tangível; amontoam-se cobertores saídos de um refugo de armazém de relíquias da II Guerra Mundial, que nada mais pode aspirar senão a sua fria quietude; os corpos imóveis pelas pastilhas e pelo peso dos decrépitos pedaços de tecido, mais não podem fazer que aguardar que a alvorada os regresse aquela forma de existência do antes do anoitecer.
Muitas vezes acordam e os corpos trémulos levantam-se perdidos, outras só por vergonha não chamam pela mãe, ou então somos nós que não queremos ouvir.
As sombras não vão além de uma qualquer caverna alegórica, em que o que é, quase nunca o parece, como se os nossos olhos ofuscados por esta outra realidade não vissem mais longe, não aceitassem o desafio, como se esta exígua forma de morrer, fosse a consequência natural desta vida, ou em última analise o retrato fiel do louco refractário e nunca incluído nesta imensa higiene social, descrito por José Régio:
“...todos tiveram pai
Todos tiveram mãe
Mas eu que nunca
Principio nem acabo
Nasci do amor que há
Entre Deus e o Diabo...”
A altivez das paredes funde-se com o olhar triste das janelas imensas e dos olhos que as percorre, os movimentos circulares de uma insónia esbarram inevitavelmente na facilidade de um SOS prescrito por alguém que nunca falou com esta insónia. Trepassa matreira de quem tudo sabe dos livros, mas ignora que tal como na vida as coisas mais importantes não são coisas, também as melhores soluções não são as que se sabem mas as que se sentem e vivem. Assim esta realidade aventada ao abandono, selecção social em estado final, remonta-me ao asilo dos indigentes, dos sem razão ou simplesmente dos..., nada, porque nada se acrescenta nesta álgebra de subtracção.
Na maioria das vezes, as amarras químicas, tecelagens laboratoriais de última geração, meticulosa e ardilosamente estudadas e de eficácia absolutamente garantida, agarram seres aparentados com gente, a camas já passadas de validade. Os sonâmbulos resistentes, flutuam como fantasmas, incrédulos da triste sorte que os assiste. Inolvidável é o troar singelo, mas sincero, mesmo honesto do punho contra a porta do isolamento; de dentro um murmúrio clama por água, os ouvidos de fora, duros e já surdos, só descortinam sons parecidos com as imagens destorcidas. Abandonado até pela voz que lhe desobedece, traição quase letal que o conduz às portas do deserto, desiste... mas sobrevive.
Esta canção de embalar, corpos e não gente, esta vivência que criticamos, mas vivenciamos, esta cumplicidade com o abandono, cheira a fel e não a mel. São rodos de gente que busca sustento para a alma, sustento para o espírito... só sustento. De volta recebe a porta do quarto fechada, o tilintar da chave perdida ao acaso num bolso fortuito, o médico idolatrado que não surge, a impaciência dos outros, a sua própria impaciência,... a sua impotência.

2 comentários:

Unknown disse...

Não sei bem o que dizer... apenas sei juntar palavras, não lhes sei dar a carga que lhes dás, não tenho esse dom que tu carregas o dom de me fazer "ver" as imagens e as cores do que escreves. Seria uma Tela demasiado triste, este teu texto.

Anónimo disse...

Suponho que esta Refexão se encontra carregada de simbolismo. Hospital psiquiátrico como "cela" física, mas nunca do pensamento...Este deveras complicado, frustrado, confuso, revoltado...e quiçá envergonhado em momentos mais lúcidos, se é que estes existem.
Imagens que marcam quem as vive, as presencia, de um modo extremamente emotivo... "Paisagem" triste, melancólica e sofrida mas com muita verdade, por muitos desconhecida...