quinta-feira, março 17, 2011

O Guardião

Submetido a este Grande Campo, onde os insanos prevalecem, sobre a ciência, mantenho a vigília do sono dos outros... absoluto, terno e por vezes sensato, quiçá hostil, Guardião da Loucura, que a fecha a sete chaves de poder e de pudor. É que nunca, nem ninguém poderá descansar o olhar sobre terra tão profana, esta que é encerrada e encarcerada pelo Portão Principal; o mesmo que os torna tão pouco gente, mas.... e aquele que vive dentro de ti, que te altera o sabor das coisas simples, que te põe um sabor a fel na vida, ou aquela maldita sensação de andar na boca do mundo, voz sempre presente de alguém tão ausente. Nunca ninguém provou esse dissabor, essa tormenta de forma tão fiel, essa condição indelével que torna aquilo a que chamam vida num calvário, ou simplesmente não a torna.
Amargo esse sabor que vive na tua boca, que desce do pensamento e te invade o espírito e inunda os gestos que trazes no corpo, o mesmo corpo que se curva sobre uma existência condenada no momento de parir e consumada no momento de partir. E partir o que é? Se só é partir se existe onde estar! Ora... existir, estar, talvez ser e que mais... mais nada ou tudo que resta deste aspecto de coisa aparentada com gente ou então só um ser atrás do Portão Principal no Grande Campo.
E que impotência é esta que carrego, que me subtrai, que me aniquila? Como me comporto com esta insatisfação? O que digo quando penso alto? Às vezes nada, como se a ausência de palavras pudesse traduzir um turbilhão de ideias quase sem nexo. Por vezes, no caminho de regresso a casa, paro o carro e na beira da estrada fico parado a ouvir o silêncio, traz-me à memória conversas, fragmentos dessa complexa existência hospitalar, deste quotidiano que tenho adoptado como um filho que desejo, mas que temo. Olho para dentro daquelas paredes forradas de mãos e fantasio a solidão dos corpos. O Hospital, pesada entidade, que me desconsola, aprendo a olhar-te com ternura com compaixão, porque feito por homens, não à imagem de mais ninguém senão a sua própria, é cheio de não presta, como diria minha mãe; desolo-me nas suas avenidas cobertas de folhas retorcidas pelo Outono, onde as aves se inibem de cantar e as árvores percorrem o céu, rasgado vezes sem conta por pássaros de ferro, que adicionam partituras a quadros de devaneio.
Os caminhos que percorro, são outros dos trilhos que existem e aos quais tento fugir, marcadas nos átrios e corredores, preenchidos de altivez e redundâncias que transformam os tectos em cúpulas, onde o som se transforma em ruídos disformes a que se acena de sim com cabeças pendulares em procissões infindáveis, como buldog’s na traseira de um Ford Escort de modelo passado de prazo. O sofrimento como destino, deste caminho, ou o objecto mau que tento expulsar e exorcizar, o sofrimento como forma última do cuidar, interpretação difícil e arriscada

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