quinta-feira, março 17, 2011

O Jardim do Éden...

Recantos e ruas, esquinas e vielas, becos e praças, quiosques e cafés, espaços imensos espaços. Verde como se fosse a cor da esperança, adiada por todos, desejada por tantos, só por poucos alcançada. Deste quarteirão eterno, sobejam ares de pinhal, bosques de fantasia e grutas habitadas por Adamastores desconhecidos e nunca vislumbrados, as rasgadas bonecas de trapo que transitam por entre os amontoados de restos de natureza morta, carregam em si as agruras dos seus pensamentos roubados das histórias das novelas, mas com finais invariavelmente tristes. São como bandos de gaivotas em terra, em dias de tempestade no mar, as altas arvores são como corais luxuriantes, recondidos da sua existência, tão retorcidos como as suas fábulas.
Para além dos muros fica o mundo mundano, do incompreensível, como quem vê o cabo das tormentas ao longe, mas tem medo e não ousa em ultrapassa-lo.
O jardim do Éden rasga-se no meio da cidade, vedado para que não possa ser invadido pelo quotidiano, pela profunda normalidade ritualizada, para que os seus sonâmbulos das pastilhas, possam preenchê-lo com os seus vagares sem incómodo. É como se fosse uma realidade onírica, onde a existência do pecado pudesse ser sempre reinventada, sem perder o sentido, como numa história para crianças.
No início tudo parecia grande, mesmo demasiadamente grande, e sem perceber porque, o espaço foi-se subtraindo progressivamente, como quem conhece as pedras do caminho de regresso a casa, são estes também os percursos do Éden.
As maças não sorvem de veneno, são doces e verdes, têm aura de vida, a mesma que à sido roubada pelo monstro, os braços escorridos pelo corpo e os gestos grosseiros dos dedos finos, falam tanto como os olhos desalentados; só o assobio do pássaro e o saltitar de um melro, vestido de luto, comendo as migalhas soltas dos restos dos bolsos, onde se guardam sustentos, recordam por fugazes instantes que a vida passa aos repelões para além da finitude destas ruas. Das copas das árvores vislumbra-se a imensidão de lá, de cá ficam os deixados pela vida e que a esta se agarram como lapas a rocha fria.
O paraíso, entidade mítica e mitigada, olha-os de soslaio enganador, mente-lhes em ideias fantásticas de recuperações, não menos fantásticas... mas e então todos aqueles que ali permanecem não quiseram mais que isto, um jardim abandonado pelo jardineiro que já não sabia o que fazer com as suas plantas e sementes.

1 comentário:

Anónimo disse...

Belo texto. As palavras soam como música suave que embalam a narrativa poética. Simplesmente ...belo